Arquitetura
SOBRE A CONSTRUÇÃO DE UM ARQUIPÉLAGO


 
 



Ocupar todo o espaço, sombrear, preencher. Buscar luz, abrir, reconhecer os campos articulados em núcleos, relacionar as numerosas salas à grelha ortogonal existente. Esse foi o gesto inicial.
 
A lembrança da inquietude, do movimento desejado no espaço, e o reconhecimento – partilhado com os curadores – de uma arquitetura que fosse campo experimental definiram a configuração final do projeto.

Três aspectos mereceram particular atenção: resgatar e constituir espaços intersticiais ativáveis; libertar-se da ortogonalidade das salas como premissa; permitir a deambulação em continuidade fluida atravessando os campos expositivos.
 
A partir daí, encontrar caminhos variáveis, labirínticos, enriquecidos pela atenção à errância presente nos movimentos humanos, adensar e não isolar, reconhecer como valor o espaço instável foram bases significativas, resultado de um rico debate com a equipe curatorial que permitiram redefinir o desenho que se estabilizou para construção.
 
À metáfora inicial de cidadelas como parâmetro do projeto, sobrepôs-se nova metáfora de vizinhanças, ou de bairros, enquanto campos não delimitados, mas reconhecíveis, territórios configurados por aproximações, densidade e convívio. Permaneceram as travessias labirínticas, os múltiplos percursos; caíram as peles/paredes que delimitavam cada núcleo.
 
Do traçado inicial, ficou o desejo de disjunção entre o território constituído para a 29ª como campo rotacionado em relação à grelha ortogonal existente no espaço. Sobre a forte grelha estrutural de pilares em malha ortogonal, instalou-se um campo de diagonais.
 
 
 
 
 
A metáfora que prevaleceu, afinal, foi a do arquipélago, somatória de pedras ou ilhas articuladas por densidades.
 
As salas, pedras do arquipélago, foram configuradas a partir das linhas dessa malha a engolir os pilares existentes e, desse modo, redefiniram a geometria do espaço. Estilhaços de um campo estável anterior, destituído, no qual a tensão da rotação agora ocorre em todo o conjunto.
 
É uma arquitetura visitante que intervém de modo movediço em relação à arquitetura residente. Usufrui da beleza e coerência do edifício para subvertê-lo sem encobri-lo. Cria, a partir da disjunção, dois territórios em convívio. Busca profundidades e variedade de caminhos. Organiza, a partir de diagonais, a instabilidade regrada do percurso. Campo instável, mas não aleatório, articulado em fugas precisamente configuradas por linhas de força de uma malha reconhecida como matriz.
 
 
 
 
 
O arquipélago proposto organiza-se também num jogo de alturas e luminosidades. Em vez do branco único, cada “pedra” assume uma temperatura de branco, buscando construir, na diferença de tons, a simulação de uma diferença de luz que confere a ilusão de profundidade. Do mesmo modo, em vez da altura única, padronizada, os blocos assumem elevações distintas e assim permitem também na vertical entrever uma espécie de vibração.
 
Na contramão do traço habitual da arquitetura, esse espaço não se definiu por uma adição gradativa de elementos, mas, aprendendo com o procedimento da escultura, preencheu todo o espaço num único gesto, constituiu blocos plenos de matéria a partir dos quais os elementos finais resultaram de um processo de supressão.
 
É uma arquitetura que fez da sombra a partida.


Campo de relações

Arquiteturas para exposições de arte guardam em si ao menos um encanto e um segredo; seu partido surge no campo imaterial que amalgama relações.
 
São desenhos que, antes de um desejo arquitetônico, remetem a um desejo narrativo. Balizam-se desde sempre pela provocação de um raciocínio curatorial articulado às obras e de um espaço anterior – espaço residente que recebe o espaço visitante proposto para uma exposição específica.
 
Há nesse sentido diferentes elementos a serem relacionados e que se tornam premissas para o partido: a arquitetura existente, a proposta curatorial – que aponta um determinado campo poético e conceitual com base na natureza das obras escolhidas e na articulação entre elas e o território que as receberá.
 
A partir da compreensão das peculiaridades de cada elemento e do campo relacional entre eles é que se podem ir constituindo as bases que configuram a natureza do espaço.
 
Nesse campo, o entrelaçamento desejável das distintas poéticas em jogo deve assegurar, em contraposição, uma arquitetura coerente e coesa como partido, de tal modo que não se confunda com as obras e que estabeleça um espaço pertinente, reconhecível e singular.
 
Seguem assim as balizas relacionais, vértices da 29ª.
 
O pavilhão onde se instala a Bienal de São Paulo apresenta-se como um prisma regular de 250 metros por 50 metros, totalizando uma área de aproximadamente 35 mil metros quadrados, estruturado por uma malha de pilares de 10 metros por 12 metros e dois balanços que definem as marquises laterais no térreo de 6 metros.
 
Aqui, desde o início, vale reconhecer uma instigante ambiguidade: o acesso indicado pela marquise intercepta o edifício transversalmente, enquanto a “entrada principal”, com a escadaria que garante a magnitude do espaço, bem como o acesso frontal que revela a extensão longitudinal do edifício, dá-se pelo extremo esquerdo da marquise.
 
Aí reside uma bela contradição, criada pelo projeto original. A marquise conduz o público a um ponto de acesso na fachada lateral do edifício, enquanto o projeto de Niemeyer constitui como entrada principal do prédio a sua cabeceira. A arquitetura da exposição reconhece a contradição. Prioriza o acesso original do edifício em sua magnitude, mas percebendo a necessidade de encaminhar o público que chega naturalmente pela marquise, indica o novo acesso por meio de um extenso plano gráfico instalado na lateral.
 
Esse pavimento de maior altura, com 7,5 metros de pé-direito, envidraçado, guarda uma forte presença da paisagem do parque. Um insinuante mezanino intercepta esse campo, já anunciando uma das fortes peculiaridades desse pavilhão – exteriormente espaço regrado, simétrico e homogêneo, revela-se como um interior complexo, assimétrico e variado.
 
O primeiro pavimento constitui a base do vão. Campo potente de um vazio descentrado de forma ameboide, é um dos surpreendentes vãos da arquitetura moderna. Desloca a simetria regular do edifício, configura um campo vertical enriquecido pelas diferentes direções de um vazio não prismático e, nesse sentido, constitui-se significativo campo de força que verticaliza a experiência, como uma espécie de rua vertical interior.
 
A extensão surpreendente aparece no segundo pavimento – onde o piso contínuo permite reconhecer os 250 de extensão longitudinal do edifício – e é distinto do terceiro pavimento pela ocupação (pelos módulos climatizados e pela partilha de espaço com o MAC USP).
 
Atentar ao edifício como contexto material de origem significou, no projeto para a 29ª, reconhecer a exuberância de uma arquitetura que se impõe em sua singular constituição e que, neste caso, não convinha acatar como matriz. Nesse sentido, o partido da 29ª, que busca outra natureza de espaço (não transparente e descontínuo), organiza-se subvertendo-o, ao constituir outra base geométrica como matriz, uma trama de diagonais. Faz isso, entretanto, sem ocultar ou encobrir o edifício, mas mantendo a tensão dos dois espaços em convívio dissonante.
 
 

Curadoria e arquitetura em diálogo ou do projeto expositivo

“Há sempre um copo de mar para um homem navegar” caracteriza-se, curatorialmente, por uma narrativa multifacetada, não linear, não hierárquica, para a qual um espaço isotrópico, contínuo e transparente não é eficaz. Busca o convívio de diferenças, em que a definição de ritmos expositivos distintos deem legibilidade à exposição.
 
Um dos encantos da Bienal, e também um de seus maiores desafios, é sua significativa extensão. Essa extensão física, dada pela dimensão do pavilhão, na 29ª reverbera como extensão simbólica, organizada a partir de “dois territórios significativos – enquanto o primeiro deles apresenta as obras, o segundo define uma zona de debate”.[2]
 
Nas áreas expositivas, mais do que campos de franca articulação, em grandes espaços contínuos com várias obras em convívio, o que prevalece é a concepção de uma trama distinta que se avizinha e se pode entrever. No texto da curadoria sobre o terreiro “Lembrança e Esquecimento”, aparece bela chave de espaço: “separação e avizinhamento”[3].
 
No entrelaçamento da arquitetura fortemente singular do Pavilhão da Bienal e de um conceito curatorial amparado na diversidade do mundo, estabelecem-se as bases iniciais para a arquitetura da 29ª: uma arquitetura constituída em contraponto às redes descentradas que articulam um espaço contínuo, mas não homogêneo; variado, mas não hierarquizado; fluido, mas constituído por materiais sólidos.
 
No arquipélago das salas expositivas desenhado pela arquitetura, o adensamento das “pedras” ou “ilhas” constitui grupos de vizinhança configurados pelas salas expositivas e seus espaços intersticiais, propiciando travessias multidirecionais.
 
E assim desenha um território variado, que se desdobra rigorosamente das linhas de força que lhe subjazem. É uma arquitetura inquieta, que se estabelece no contágio com as obras e suas poéticas.
 
As obras, traço constitutivo, campo relacional ocorrido em simultaneidade com a arquitetura são, por fim, a paisagem interior imaginada – ainda que nunca totalmente prevista – com a qual o arquipélago engendrado se ativará.
 
 
​​Marta Bogéa
Arquiteta

[1] Projeto de Oscar Niemeyer, Zenon Lotufo, Helio Uchôa e Eduardo Kneese de Mello, com a colaboração de Gauss Estelita e Carlos Lemos. O conjunto do Parque do Ibirapuera foi projetado para as comemorações do IV Centenário da fundação da cidade de São Paulo. Em:, Henrique E. Mindlin, _Arquitetura Moderna no Brasil_. Rio de Janeiro: Aeroplano Editorial/Iphan, 2000.
[2] Texto preliminar para o projeto curatorial da 29a Bienal de São Paulo, maio de 2010.
[3] Ibid.

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