Curadoria
HÁ SEMPRE UM COPO DE MAR PARA UM HOMEM NAVEGAR
 

Do conceito

A 29ª Bienal de São Paulo está ancorada na idéia de que é impossível separar arte e política. Impossibilidade que se expressa no fato de a arte, por meios que lhes são próprios, ser capaz de interromper as coordenadas sensoriais com que entendemos e habitamos o mundo, inserindo nele temas e atitudes que ali não cabiam ainda, tornando-o assim maior e diferente.
 
A eleição desse princípio organizador do projeto curatorial se justifica por viver-se em mundo de conflitos diversos em que a arte se afirma como meio privilegiado de apreensão e de simultânea reinvenção da realidade. Essa escolha torna-se necessária, além disso, para afirmar a singularidade da arte em relação a outras formas de entender e de intervir no presente, levadas quase ao ponto da indistinção em décadas recentes.
 
É nesse sentido que o título dado à exposição, Há sempre um copo de mar para um homem navegar – verso do poeta Jorge de Lim​a tomado emprestado de sua obra maior, Invenção de Orfeu –, sintetiza o que se busca com a 29a Bienal de São Paulo: afirmar que a dimensão utópica da arte está contida nela mesma, e não no que está fora ou além dela. É nesse “copo de mar”, nesse infinito próximo que os artistas teimam em produzir, que de fato está a potência de seguir adiante, a despeito de tudo o mais; a potência de seguir adiante, como diz o poeta, “mesmo sem naus e sem rumos / mesmo sem vagas e areias”.
 
Por ser um espaço de reverberação desse compromisso em muitas de suas formas, a 29ª Bienal de São Paulo põe seus visitantes em contato com maneiras de pensar e habitar o mundo para além dos consensos que o organizam e que o tornam ainda lugar pequeno, onde nem tudo ou todos são contemplados. Põe seus visitantes em contato com a política da arte.
 

Do tempo e do lugar

A 29ª Bienal de São Paulo se esquiva de dois modelos frequentes na apresentação da arte contemporânea. Em primeiro lugar, do modelo vinculado somente às demandas apressadas do mercado e do espetáculo, marcado pela ansiedade da busca do que é supostamente inédito. Em segundo lugar, do modelo museológico estrito que inscreve a produção artística em uma narrativa histórica legitimada e sem fissuras. Se o primeiro modelo recalca na arte feita no presente articulações cruciais com a produção que a precede, o segundo apazigua as incertezas e os riscos que nutrem e que marcam a condição da vida contemporânea.
Em lugar de privilegiar somente o que é recente ou, alternativamente, apenas o que é estabelecido, a mostra vai afirmar, por meio da articulação de trabalhos feitos em diferentes momentos, vínculos temporais que evidenciem, desde a plataforma conceitual definida, continuidades na criação artística das últimas décadas. O fundamental é que, seja inédita ou antiga, a produção reunida tenha potência simbólica para abrir frestas, de duração e de tamanho diversos, nos consensos em que se funda o entendimento das ideias e das coisas que organizam o mundo.
 
É ela, portanto, simultaneamente uma celebração do fazer artístico e uma afirmação de sua responsabilidade perante a vida; momento de desconcerto dos sentidos e, ao mesmo tempo, de geração de conhecimento que não se encontra em mais parte alguma. Busca envolver o público na experiência sensível que a trama das obras expostas promove e também na capacidade destas de refletir criticamente o mundo em que estão inscritas. Oferece exemplos, enfim, de como a arte tece, entranhada nela mesma, uma política.
 
A 29ª edição mantém a tradição de internacionalização estabelecida desde as primeiras edições do evento, convidando 159 artistas de distintas partes do mundo. Isso não implica, porém, pactuar com a obsessão, presente em várias mostras nas duas últimas décadas, de expor extensivamente o outro e o distante, tarefa fadada à insuficiência e ao fracasso mesmo em eventos de amplitude semelhante à dela. Partindo do reconhecimento desse incontornável limite, evita a tentação de tomar a origem territorial de artistas como valor absoluto de seleção. Sua estratégia é a de enfatizar mais o lugar e o tempo simbólicos desde onde se enuncia o discurso curatorial – desde o Brasil e em um momento de rápida reorganização geopolítica do mundo – do que mesmo a quantidade de vozes diversas chamadas a engrossá-lo. Isso faz com que a exposição tenha inflexões diferentes de outras mostras que sejam eventualmente organizadas a partir de princípio semelhante, mas desde uma posição de mundo distinta. Implica, além disso, conceber e organizar a mostra politicamente; ou seja, entendê-la como um aparato que retrata criticamente, por meio da produção artística e da organização desta no espaço expositivo, o mundo corrente. 
 
Para tanto, não somente a escolha das obras e sua articulação no espaço são decisivas. Transformado em lugar de encontro, fala, escuta, disputa, comunhão e dúvida, também o ambiente expositivo ecoa a potência da política como ato de criação do que não é dado, ou do que sequer se adivinha como possível.
 
Com essa ambição e esse propósito, foram construídos seis espaços de convívio que, além de servirem para descanso e pausa antes de seguir-se adiante no percurso da mostra, são usados para atividades diversas, tais como debates, projeções de filmes, performances, apresentações de teatro e música, encenações de peças e leituras. Batizados de terreiros, esses espaços remetem aos largos, praças, terraços, templos e quintais, lugares abertos ou fechados, onde em quase todo canto do Brasil se dança, briga, canta, brinca, toca, chora, conversa, joga ou se ritualiza a religiosidade híbrida do país.
 
A partir de agrupamentos de obras, da arquitetura e programação de cada um dos terreiros e do extenso programa educativo da 29ª Bienal de São Paulo, questões variadas serão afirmadas e discutidas, deixando patente a presença profunda e diversa da arte na vida. Entre um copo de mar e um pedaço de chão, a criação artística se torna política.
 
 
Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos



EQUIPE CURATORIAL

Curadores - chefes

Moacir dos Anjos é pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco desde 1990. Foi curador do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam), no Recife (2001-2006). Membro da equipe curatorial do programa Rumos Itaú Cultural Artes Visuais (2001-2003), São Paulo. Co-curador da Bienal do Mercosul (2007), Porto Alegre, e da mostra 10+1. Geração da Virada (2006), Instituto Tomie Ohtake, São Paulo. Curador de Contraditório - Panorama da Arte Brasileira (2007), Museu de Arte Moderna de São Paulo; Rosângela Rennó (2006), Mamam, Recife; Babel - Cildo Meireles (2006), Estação Pinacoteca, São Paulo; Ernesto Neto/Rivane Neuenschwander (2003) e Adoração - Nelson Leirner (2002), ambos no Mamam, Recife. Publicou artigos de teoria e história da arte e textos críticos sobre artistas em livros, catálogos e revistas. Dentre eles, os mais recentes “Where all places are”, em Cildo Meireles (London: Tate, 2008) e “Artur Barrio”, em Artur Barrio (Porto: Museu Serralves, 2011, em preparação). É autor de Local/Global: arte em trânsito (Rio de Janeiro: Zahar, 2005).

Agnaldo Farias  é crítico de arte e curador, e realiza projetos para o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Foi curador-chefe do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (1998/2000) e diretor de exposições temporárias do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (1990/1993). É mestre em História Social pela Universidade de Campinas – UNICAMP e doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, onde atualmente ensina. É autor de ensaios publicados no Brasil e no exterior. Algumas das exposições que curou são: 1994, Bienal Brasil Século XX (1994), Fundação Bienal de São Paulo; 1995, 1ª Bienal de Johannesburg e 46ª Bienal de Veneza (com Nelson Aguilar); 1996, 23ª Bienal Internacional de São Paulo (com Nelson Aguilar); 2002, 25a Bienal Internacional de São Paulo (Brazilian Representation); 2002, Faxinal das Artes (Programa de residência em Faxinal do Céu); 2003, Ordenação e Vertigem, Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo; 2004, Nelson Leirner 1994+10, Museu Oscar Niemeyer, Curitiba e Instituto Tomie Ohtake, São Paulo.


Curadores convidados
      

Chus Martinez é curadora chefe do Museu d'Art Contemporani de Barcelona (MACBA) desde 2008. Entre 2001 e 2002 trabalhou na Fundação La Caixa em Barcelona, como curadora da Sala Montcada, posição que ocupou entre 2002 a 2005 na Sala Rekalde, em Bilbao, Espanha. Entre 2005 a 2008 foi diretora da Frankfurter Kunstverein. Formada em Filosofía e História da Arte pela Universidade Autônoma de Barcelona e la Freie Universität de Berlím. Fez mestrado em Curadoria no Center for Curatorial Studies de Bard College em Nova Iorque e em seu doutorado discute o tema sobre a interface entre estética e filosofia da arte. Foi curadora, entre outras, da exposição ‘The Invisible Insurrection of a Million Minds’, 2005, do Pavilhão do Chipre na 51ª Bienal de Veneza, 2005, e de ‘The Unanimous Life – Deimantas Narkevicius’, no Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía.

Fernando Alvim é Vice-Presidente da Fundação Sindika Dokolo e um dos principais atores da cena artística angolana. Trabalhando simultaneamente como artista e como curador de exposições, Alvim levou para Bruxelas, em 1999, o Camouflage - um espaço expositivo cuja principal intenção era dar visibilidade à produção artística africana na Europa. Nos últimos anos, Alvim idealizou e dirige a Trienal de Arte de Luanda, uma das principais plataformas para a arte contemporânea angolana. Comissariou, juntamente com Simon Njami e durante a Bienal de Veneza de 2007, o projetto "Check List - Luanda Pop", reunindo o trabalho de cerca de 30 artistas africanos e oferecendo uma visão do panorama mais significativo da criação africana dos dias de hoje.

Rina Carvajal  é curadora e crítica de arte. Atua como curadora adjunta do Miami Art Museum desde 2007. Foi diretora executiva e curadora-chefe do Miami Art Central de 2004 a 2007 e, anteriormente, diretora do Manson Gross Art Galleries da Universidade Rutgers. Carjaval foi uma das curadoras da 24a Bienal de São Paulo em 1998, e membro da equipe curatorial do Museum of Contemporary Art de Los Angeles (MoCA LA) de 1997 a 2000. Antes, foi curadora de arte contemporânea do Museo de Bellas Artes, e vice-diretora do Museo de Arte Contemporaneo, ambos em Caracas, Venezuela. Carjaval graduou-se em história da arte no Institute of Fine Arts, da New York University. Curou, entre outras exposições: "Carlos Cruz Diez: The Embodied Experience of Color," 2009, Miami Art Museum; "Tacita Dean: Film Works," 2007, Miami Art Central; e "The Experimental Exercise of Freedom: Lygia Clark, Gego, Mathias Goeritz, Helio Oiticia and Mira Schendel," 2000, no Museum of Contemporary Art, Los Angeles.
      
Sarat Maharaj nasceu na África do Sul e formou-se em uma das universidades racialmente segregadas nos anos de Apartheid. Desenvolveu seu PhD na Inglaterra sobre ‘A dialética do Modernismo e da Cultura de Massa: Estudos na Arte Britânica do Pós-Guerra’. Professor de História e Teoria da Arte em Goldsmiths, Londres de 1980 a 2005, onde hoje atua como professor pesquisador visitante. Atualmente, é professor de Artes Visuais e Sistemas de Informação, na Universidade de Lund e na Academia de Arte de Malmo, Suécia. Ensinou e pesquisou também em Berlim (2001-02) e em Maastricht (1999-2001). Suas pesquisas e publicações concentram-se em torno de Marcel Duchamp, James Joyce e Richard Hamilton. Foi co-curador da Documenta XI (Kassel, 2002) e, junto a Richard Hamilton e Ecke Bonk, curou ‘Retinal. Optical. Visual. Conceptual on Duchamp’, em Rotterdam, 2002. Foi, ainda, co-curador da Trienal de Guangzhou, 2008 e editor/curator de Printed Projects 11 (Dublin) ‘Querying the GT 2008’, Pavilhão da Irlanda do Norte, Bienal de Veneza, 2009.
      
Yuko Hasegawa foi curadora chefe do 21st Century Museum of Contemporary Art, em Kanazawa, entre 1999 e 2006. Desde então é curadora chefe do MOT, Museum of Contemporary Art, em Tokyo. Também atua como membro do Comitê Internacional de Museus e Coleções de Arte Moderna. Foi membro do júri internacional da Bienal de Veneza em 1999, diretora artística da 7ª Bienal de Istambul em 2001 e membro do júri para o Prêmio Hugo Boss em 2002. Co-curadora da 4 ª Bienal de Shangai em 2002 e comissária do Pavilhão do Japão na 50 ª Bienal de Veneza, em 2003. Suas exposições incluem ‘When Lives Become Form: Brazilian Contemporary Art, 1960s to the Present’, YBCA Galleries, 2009 e ‘De-Genderism - de’truire dit-elle/il’ at the Setagaya Art Museum, 1997. Também ensina História da Arte na Tokyo National University of Fine Arts and Music.

 

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