Educativo
O PROJETO EDUCATIVO DA 29ª BIENAL DE SÃO PAULO


A 29ª Bienal de São Paulo é um espaço onde de maneira vital e às vezes incômoda a arte se manifesta. Assim como o ar que respiramos é compartilhado com todos indiscriminadamente, o mesmo pode acontecer com a produção artística. Uma exposição como a Bienal de São Paulo não precisa ser restrita a um número reduzido de pessoas, especialmente a uma elite. Pois a arte pode escancarar, indagar, refletir e apresentar visões sobre o que acontece no mundo independente das ideias prévias que tenhamos dele. Pensamentos estéticos articulados a experiências de vida as mais díspares reverberam em nós por meio das obras apresentadas, pondo em cheque nossos conceitos, preconceitos, valores, cultura, frequentemente lançando desafios e questões que não se resolvem. O papel da arte não é o de apresentar respostas, mas o de propor perguntas. O que cada um enxerga nos trabalhos e o modo particular como vivencia as experiências propostas pelos artistas cria nexos com os outros visitantes, abre espaço para compartilhar, cria um todo imantado pela surpresa, pelo inesperado.

O artista nos coloca em contato com a invenção. É ele quem ouve o impossível no território da liberdade e coloca em prática a sua ideia. Nos recorda a possibilidade de mundos que não existem e até mesmo com crueza revela o que está embaixo do nosso nariz. Foge da ilusão do mundo racional, falsamente estável, inventando outros pontos de vista e estados, rompendo e questionando padrões e rotinas, oferecendo-nos a ambigüidade em lugar da certeza.


A escuta e o diálogo na experiência com a arte

Os processos educativos se dão nesse lugar cheio de vida, tensões e incongruências. Como receber as pessoas numa Bienal de São Paulo e potencializar o seu contato com a mostra? Como desenvolver ações significativas para os diferentes públicos? Como falar com um grande número pessoas, falando com cada uma?

O Projeto Educativo da 29ª Bienal envolve escuta e diálogo, aprendizagem e provocação, ensino e desconstrução, acolhimento e rigor, conversa e respeito à solidão. Um trabalho colaborativo onde o encontro se dá no pequeno grupo, olho no olho, e também na grande conversa.

Comprometido com os conceitos curatoriais da exposição, o projeto contribui para que a mostra contemple o binômio arte e política. Tem como objetivo maior a difusão da arte contemporânea, que se irradia por ações variadas projetadas para públicos distintos, acompanhada de documentação e material próprios, o que inclui um site projetado para atingir o público interessado na formação estética, ávido por informações, grande parte dele situado em locais afastados dos grandes centros.

O Educativo, de acordo como o ensinamento de Paulo Freire, está atento às várias vozes presentes nessa ciranda: a voz do artista, do curador, do estudante, do visitante de procedências variadas, do segurança da sala, do educador,  dando espaço para que cada um compreenda e se expresse a seu modo. Como diz o educador Paulo Freire em Pedagogia da Autonomia: “Quem tem o que dizer tem igualmente o direito e o dever de dizê-lo. É preciso, porém, que quem tem o que dizer saiba, sem sombra de dúvida, não ser o único ou a única a ter o que dizer. Mais ainda, que o que tem a dizer não é necessariamente, por mais importante que seja, a verdade alvissareira por todos esperada".

As redes colaborativas

Este trabalho tem como foco principal a experiência com a arte, isto é, a proposta de vivenciá-la e compartilhá-la numa perspectiva estética e política, tal como proposto pela curadoria geral da mostra. Nesse contexto, o objetivo é atuar com públicos diversos: especialistas, pessoas familiarizadas ou não com o universo da arte, públicos com necessidades especiais ou com pouco acesso a exposições e outras atividades culturais.

A elaboração do Projeto Educativo da 29ª Bienal de São Paulo começou em julho de 2009, a partir da articulação de redes, diálogo com educadores que participaram de educativos anteriores da Fundação Bienal ao longo de sua história e com diferentes organizações e instituições educativas e culturais, sempre respeitando a história e os princípios de cada uma. Integram esta rede desde comunidades, ONGs, escolas públicas, particulares, universidades, espaços culturais, museus, Programas de Educação e Cultura do Município e Estado de São Paulo, de outros Estados e Governo Federal.

O trabalho foi desenvolvido de maneira pró-ativa, por meio do convite para uma conversa sobre arte contemporânea e questões que envolvem esta edição da Bienal. A partir deste primeiro contato foi realizado um planejamento de ações compartilhadas. O projeto teve como desafio criar possibilidades de encontro entre os diferentes públicos e a arte, promovendo um diálogo inquietador e tomando como ponto de partida as experiências e os repertórios de cada participante.

A voz está em movimento. Todos podem tomá-la. Ela é a reverberação do pingue-pongue do corpo coletivo, dos percursos realizados, perguntas e experiências. Como diz Augusto Boal, “todos os seres humanos são atores – porque atuam – e espectadores – porque observam – somos todos espect-atores ”.

Ações do educativo

Contemplando ações que ocorrem antes, durante e após a mostra, o Projeto Educativo da 29ª Bienal está organizado em oito eixos, que propiciam circunstâncias diversas de troca e aprendizado. São eles:

Ações antes da 29ª Bienal
1º Ações de formação para educadores de escolas públicas e privadas, presenciais e à distância;
2º Ações em ONGs e comunidades de bairro;
3º Curso de formação para os educadores que realizam as visitas orientadas ao longo da mostra. Parte dessa atividade aconteceu em rede, em parceria com 22 instituições culturais de São Paulo.

Ações durante a 29ª Bienal
4º Visitas orientadas à 29ª Bienal para o público escolar e espontâneo;
5º Cursos para crianças, jovens, professores e outros profissionais;
6º Programação para crianças e famílias nos terreiros-lugares de encontro dentro da exposição;
7º Encontros com artistas, críticos, educadores, curadores e outros profissionais- Programação da Semana do Professor;
8º Seminário Internacional- Educação, Arte e Política.

Após a mostra, será implementado um setor educativo permanente com o compromisso de alimentar a rede de relações estabelecida.

Parcerias

Ao realizar encontros com professores que problematizam assuntos do cotidiano, abrem-se caminhos para novas formas de aprender e se relacionar com a arte e com o mundo.

A cada encontro, foram discutidos conceitos relacionados à arte contemporânea, política e ao projeto curatorial da 29ª Bienal, bem como as noções de experiência com a arte e de ensino contemporâneo da arte. Ao participar da conversa, o professor recebe o material educativo preparado especialmente para esta edição – para trabalhar com seus alunos - e atua no desenvolvimento de uma ação poética coletiva. Nas comunidades, depois de um encontro inicial, alguns artistas são convidados a criar ações junto com os moradores.

O objetivo deste projeto foi atender 400.000 pessoas em visitas orientadas. Para isto, foram realizados encontros e cursos para cerca de 35.000 professores.

Os educadores e sua formação

O público que visitou a 29a Bienal encontrou uma equipe de 300 educadores preparada para o diálogo, a partir de um curso realizado em parceria com as principais instituições culturais de São Paulo, para fortalecer e ampliar o papel do educador como mobilizador de questões.

O curso oferecido a esses educadores aconteceu em duas etapas. A primeira, desenvolvida entre abril e junho, contou com a participação de 500 estudantes universitários, divididos em grupos de aproximadamente 20 participantes, acompanhados por 24 supervisores, um em cada grupo,  que visitaram os setores educativos e as exposições de 22 espaços culturais de São Paulo. A segunda, realizada entre agosto e setembro, foi oferecida a 300 estudantes selecionados do grupo inicial, envolvendo o aprofundamento dos conceitos e artistas da 29ª Bienal.

A programação do Projeto Educativo desta edição buscou como política pública acessar diferentes grupos sociais de diversas maneiras, oferecendo seis percursos iniciais à mostra, mas estimulando as pessoas a construírem seus próprios caminhos.

Numa Bienal que propõe pensar a arte e a política à luz da poesia – “há sempre um copo de mar para um homem navegar” -, o Projeto Educativo também encontra uma possibilidade de realizar uma ação política através da arte. A arte está em primeiro lugar e em si já é educativa. Esta ação educativa e política não se coloca como um corpo enrijecido, extremamente analítico, com métodos que escolarizam a arte como se ela fosse passível de ser explicada como um teorema ou um fato histórico, mas como um corpo coletivo que se alimenta da escuta da arte, um corpo que está sempre em transformação, que cresce agregando outros corpos e visões, que questiona o tempo todo. Afinal, se arte é algo vital, uma Bienal é para revitalizar.


Stela Barbieri

Curadora Educacional



[1] Associação Cultural Videobrasil, Caixa Cultural, Centro Cultural Banco do Brasil, Centro Cultural São Paulo, Centro da Cultura Judaica, Instituto de Arte Contemporânea - IAC, Instituto Arte na Escola, Instituto Moreira Salles, Instituto Tomie Ohtake, Itaú Cultural, Memorial da America Latina, Museu Afro Brasil, Museu Brasileiro de Escultura, Museu da Casa Brasileira, Museu da Cidade de São Paulo, Museu da Imagem e do Som,  Museu de Arte Brasileira da FAAP, Museu de Arte Contemporânea da USP,  Museu de Arte de São Paulo, Museu Lasar Segall, Paço das Artes, Pinacoteca do Estado de São Paulo.



Stela Barbieri
, artista plástica, curadora educacional da 29ª Bienal de São Paulo, diretora da Ação Educativa do Instituto Tomie Ohtake, desde agosto de 2002, onde faz a coordenação geral dos cursos de formação de educadores, programa de atendimento ao público, publicações educativas de apoio às exposições, além de cursos das várias linguagens artísticas para público em geral e especializado. Educadora há vinte e quatro anos na Escola Experimental Vera Cruz, atualmente assessora de artes da Educação Infantil e Ensino Fundamental Ciclo I. Assessora também na área de artes, na Escola Castanheiras e Nossa Senhora das Graças. Participou sete anos do programa “Escola que Vale” no Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária (Cedac), desenvolvendo oficinas de artes em várias regiões do país para professores de escolas públicas. É contadora de histórias e autora de livros infanto-juvenis como A menina do fio e Bumba-meu-boi, da editora Girafinha. Assessora do projeto Escola no Cinema do Espaço Unibanco de Cinema há dezesseisanos.

 

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